Zuul, 'destruidor de canelas'
Zuul crurivastator
"Zuul, destruidor de canelas"
Sobre esta espécie
Zuul crurivastator é um anquilossaurídeo de grande porte do Cretáceo Superior (Campaniano, cerca de 76 milhões de anos) do Membro Coal Ridge da Formação Judith River, em Montana, Estados Unidos. Foi descrito em 2017 por Victoria M. Arbour e David C. Evans, em artigo publicado na Royal Society Open Science, com base no holótipo ROM 75860, abrigado no Royal Ontario Museum, em Toronto. O esqueleto, inicialmente exposto por acaso em 2014 por uma equipe comercial da Theropoda Expeditions LLC que escavava um tiranossauro próximo, acabou se revelando o anquilossaurídeo mais completo já encontrado na América do Norte: crânio inteiro, cauda completa com a clava terminal, grande parte do pós-crânio, osteodermos preservados in situ, impressões de pele e até películas escuras interpretadas como bainhas queratinosas fossilizadas de espinhos. Em comprimento, o animal chegava a cerca de seis metros e pesava em torno de 2,5 toneladas, com corpo baixo e largo típico dos anquilossaurídeos, membros robustos, pescoço protegido por anéis cervicais de osteodermos fundidos e costas cobertas por uma carapaça complexa de placas poligonais, algumas formando espinhos laterais pronunciados sobre os flancos. O nome genérico Zuul, uma homenagem à Guardiã de Gozer do filme Caça-Fantasmas (1984), foi escolhido porque o focinho curto, arredondado e com dois grandes chifres esquamosais projetados para trás lembra imediatamente o demônio caninoide do filme. Já o epíteto específico crurivastator, 'destruidor de canelas' em latim, é uma referência direta à cauda: os últimos sete vértebras caudais estão co-ossificadas formando um 'cabo' rígido, e a extremidade termina em uma clava óssea enorme, formada por osteodermos fundidos, pesada o suficiente para quebrar, em teoria, as patas de um grande terópode atacante como Daspletosaurus. Zuul também se tornou referência mundial em um debate antigo da paleontologia de anquilossauros: para que servia, afinal, a clava caudal? O holótipo preserva, em seus flancos próximos à cintura pélvica, osteodermos com patologias (fraturas cicatrizadas, reabsorção óssea) cuja distribuição é incompatível com mordidas de predador, mas é consistente com pancadas laterais desferidas por outro indivíduo da mesma espécie. Em 2022, Arbour, Zanno e Evans apresentaram essa evidência em Biology Letters e concluíram que a clava caudal dos anquilossaurídeos evoluiu, em boa parte, como arma de combate intraespecífico, provavelmente ligada a disputas por parceiros e seleção sexual. Outra dimensão extraordinária do holótipo é a preservação de tecido mole: filmes escuros sobre os osteodermos indicam bainhas queratinosas nos espinhos, e há impressões de escamas no pescoço e na cauda. Junto com Borealopelta markmitchelli (um nodossaurídeo preservado em três dimensões), Zuul é hoje o melhor material conhecido para estudar como séria a pele, a armadura e, em alguns casos, a coloração de um anquilossauro em vida. Foi ainda o primeiro anquilossaurídeo descrito para a Formação Judith River, ampliando o retrato já rico da Laramídia campaniana, que compartilhava com tiranossaurídeos, ceratopsídeos e hadrossaurídeos em uma planície costeira quente e úmida na margem oeste do Mar Interior Ocidental.
Formação geológica e ambiente
Formação Judith River (Membro Coal Ridge), Campaniano (cerca de 76 Ma), Montana, Estados Unidos. A unidade aflora ao longo da drenagem do Rio Missouri e do Rio Milk, principalmente no Upper Missouri Breaks National Monument e no norte do estado, perto de Havre. Representa sistemas fluviais meandrantes e planícies de inundação sobre uma planície costeira úmida, na margem oeste do Mar Interior Ocidental (Western Interior Seaway). A fauna associada inclui tiranossaurídeos como Daspletosaurus horneri, ceratopsídeos como Avaceratops lammersi, hadrossaurídeos como Brachylophosaurus canadensis e uma diversidade de terópodes menores. O Membro Coal Ridge é o pacote estratigráfico superior da formação e tem idade em torno de 76,2 a 75,2 milhões de anos, datação que enquadra Zuul como contemporâneo das faunas de Dinosaur Park (Alberta) e Two Medicine (Montana).
Galeria de imagens
Reconstituição em vida de Zuul crurivastator mostrando a armadura dorsal, chifres esquamosais e clava caudal.
Paleoart por Tom Parker, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Ecologia e comportamento
Habitat
Planície costeira quente e úmida na margem oeste do Mar Interior Ocidental, drenada por rios meandrantes. O Membro Coal Ridge da Formação Judith River preserva ambientes pantanosos e semi-florestados, com estação chuvosa marcada, compartilhados com tiranossaurídeos, ceratopsídeos e hadrossaurídeos. A vegetação incluía coníferas, samambaias arborescentes e angiospermas baixas típicas do Campaniano de Laramídia.
Alimentação
Herbívoro estritamente de baixo porte, alimentando-se de vegetação tenra junto ao solo (samambaias, cicadáceas, angiospermas baixas). Os dentes pequenos, em forma de folha, o palato largo e a provável língua muscular indicam alimentação seletiva, de corte e mordida, sem grande trituração. O bico amplo permitia abocanhar molhos de vegetação, cortados depois pelos dentes posteriores.
Comportamento e sentidos
Lento, quadrúpede e fortemente blindado, Zuul dependia de defesa passiva (armadura completa, espinhos nos flancos, anéis cervicais) e de defesa ativa (clava caudal capaz de desferir golpes pesados). Contra grandes terópodes do Judith River, como Daspletosaurus, a clava séria uma arma de último recurso, potencialmente fraturando membros. O padrão de osteodermos patológicos do holótipo, concentrado na cintura pélvica, sugere também uso rotineiro da cauda em combate intraespecífico: pancadas laterais entre indivíduos da mesma espécie, possivelmente em disputas por parceiros ou território.
Fisiologia e crescimento
Animal de cerca de 6 m de comprimento e 2,5 toneladas de massa. A extensa armadura de osteodermos (em alguns locais com bainhas queratinosas preservadas), as vértebras caudais fundidas em um 'cabo' rígido e o grande bulbo distal indicam forte investimento em defesa passiva e ativa. Metabolismo mesotérmico, típico de grandes ornitísquios, é o cenário mais plausível, com crescimento rápido durante a juventude e desaceleração após a maturidade esquelética.
Paleogeografia
Configuração continental
Ron Blakey · CC BY 3.0 · Cretáceo, ~90 Ma
Durante o Campaniano (~76–75 Ma), Zuul crurivastator habitava a Laramídia, a metade ocidental do que hoje é a América do Norte, separada pelo Mar Interior do Oeste (Western Interior Seaway), um mar raso que dividia o continente ao meio. Os continentes estavam em posições muito diferentes das atuais: a Índia viajava em direção à Ásia, a Antártida ainda estava conectada à Austrália, e a América do Sul era uma ilha separada.
Inventário de Ossos
O holótipo ROM 75860 é o esqueleto de anquilossaurídeo mais completo já encontrado na América do Norte e o primeiro anquilossaurino descrito com crânio completo e cauda completa com clava preservados em um mesmo indivíduo. Inclui ainda osteodermos in situ, impressões de pele e bainhas queratinosas fossilizadas, um conjunto equiparável apenas ao nodossaurídeo Borealopelta markmitchelli. A completude anatômica chega a cerca de 90%, com lacunas nos membros e em parte das costelas. O material foi descoberto em maio de 2014, escavado ao longo daquele ano, adquirido pelo Royal Ontario Museum e descrito em 2017 por Arbour e Evans em Royal Society Open Science.
Estruturas encontradas
Estruturas inferidas
Literatura Científica
15 artigos em ordem cronológica — do artigo de descrição original até pesquisas recentes.
A new ankylosaurine dinosaur from the Judith River Formation of Montana, USA, based on an exceptional skeleton with soft tissue preservation
Arbour, V.M. e Evans, D.C. · Royal Society Open Science, 4: 161086
Descrição original de Zuul crurivastator, anquilossaurídeo da Formação Judith River (Coal Ridge Member, Montana, cerca de 76 Ma), a partir do holótipo ROM 75860, o esqueleto de anquilossaurídeo mais completo conhecido na América do Norte. Preserva crânio inteiro, cauda com clava, osteodermos em posição in situ, impressões de pele e tecido mole queratinoso. A análise filogenética posiciona Zuul em Ankylosaurini, como parente próximo de Dyoplosaurus e Scolosaurus.
Palaeopathological evidence for intraspecific combat in ankylosaurid dinosaurs
Arbour, V.M., Zanno, L.E. e Evans, D.C. · Biology Letters, 18(12): 20220404
Estudo paleopatológico dos osteodermos do holótipo de Zuul crurivastator, concentrados nas laterais próximas à cintura pélvica. A distribuição das lesões (fraturas cicatrizadas e reabsorção) é incompatível com mordidas de predador, mas consistente com pancadas laterais desferidas por outro indivíduo da mesma espécie. Os autores concluem que a clava caudal dos anquilossaurídeos evoluiu, em grande parte, como arma de combate intraespecífico, provavelmente ligada a disputas por parceiros e seleção sexual.
Systematics, phylogeny and palaeobiogeography of the ankylosaurid dinosaurs
Arbour, V.M. e Currie, P.J. · Journal of Systematic Palaeontology, 14(5): 385-444
Revisão sistemática e filogenética abrangente da família Ankylosauridae, com base em todas as espécies conhecidas. Estabelece a tribo Ankylosaurini dentro de Ankylosaurinae e define o arcabouço em que Zuul séria posteriormente inserido. Discute dispersões entre Ásia e América do Norte ao longo do Cretáceo e propõe múltiplos eventos de migração.
Ankylosaurid dinosaur tail clubs evolved through stepwise acquisition of key features
Arbour, V.M. e Currie, P.J. · Journal of Anatomy, 227(4): 514-523
Mostra que a clava caudal dos anquilossaurídeos evoluiu em passos: primeiro surgiu o 'cabo' rígido de vértebras caudais distais, dezenas de milhões de anos antes do bulbo terminal formado por osteodermos fundidos. Importante contexto evolutivo para interpretar a cauda altamente derivada de Zuul, que reúne um cabo longo com uma clava terminal massiva.
A redescription of the ankylosaurid dinosaur Dyoplosaurus acutosquameus Parks, 1924 (Ornithischia: Ankylosauria) and a revision of the genus
Arbour, V.M., Burns, M.E. e Sissons, R.L. · Journal of Vertebrate Paleontology, 29(4): 1117-1135
Redescrição do holótipo de Dyoplosaurus acutosquameus e revalidação do gênero como distinto de Euoplocephalus, com base em caracteres da clava caudal, da pelve e da armadura. Em análises filogenéticas posteriores, Dyoplosaurus é recuperado como parente próximo de Zuul dentro de Ankylosaurini, tornando o trabalho base para situar o novo gênero em 2017.
A new ankylosaurid dinosaur from the Upper Cretaceous (Kirtlandian) of New Mexico with implications for ankylosaurid diversity in the Upper Cretaceous of western North America
Arbour, V.M., Burns, M.E., Sullivan, R.M., Lucas, S.G., Cantrell, A.K., Fry, J. e Suazo, T.L. · PLOS ONE, 9(9): e108804
Descrição de Ziapelta sanjuanensis (Formação Kirtland, Novo México), baseada em crânio completo e armadura cervical parcial. A análise filogenética associa Ziapelta aos anquilossaurídeos do norte da América do Norte, incluindo Ankylosaurus, Anodontosaurus, Euoplocephalus, Dyoplosaurus e Scolosaurus, mesma linhagem em que Zuul foi depois posicionado.
A new ankylosaurid from the late Cretaceous Two Medicine Formation of Montana, USA
Penkalski, P. · Acta Palaeontologica Polonica, 59(3): 617-634
Descreve Oohkotokia horneri, anquilossaurídeo da Formação Two Medicine (Montana), diagnosticado por bossas esquamosais triédricas e padrão particular de ornamentação craniana. Importante como vizinho geográfico e contemporâneo de Zuul no Campaniano de Montana, permitindo comparar duas comunidades ancilossauras próximas.
Scolosaurus cutleri (Ornithischia: Ankylosauria) from the Upper Cretaceous Dinosaur Park Formation of Alberta, Canada
Penkalski, P. e Blows, W.T. · Canadian Journal of Earth Sciences, 50(2): 171-182
Revalida Scolosaurus cutleri como gênero distinto de Euoplocephalus, com base na armadura cervical, em outros osteodermos e na estrutura do membro anterior. Em Arbour e Evans (2017), Scolosaurus aparece entre os parentes mais próximos de Zuul dentro de Ankylosaurini, tornando este trabalho parte direta da base filogenética usada para descrever o novo gênero.
Euoplocephalus tutus and the diversity of ankylosaurid dinosaurs in the Late Cretaceous of Alberta, Canada, and Montana, USA
Arbour, V.M. e Currie, P.J. · PLOS ONE, 8(5): e62421
Reavalia espécimes historicamente agrupados sob Euoplocephalus tutus e mostra que a diversidade de anquilossaurídeos no Campaniano norte-americano é maior do que se pensava, revalidando Anodontosaurus, Scolosaurus e Dyoplosaurus. Estabelece o cenário taxonômico em que Zuul séria posteriormente introduzido como um novo elemento distinto da fauna.
The ankylosaurid dinosaurs of the Upper Cretaceous Baruungoyot and Nemegt formations of Mongolia
Arbour, V.M., Currie, P.J. e Badamgarav, D. · Zoological Journal of the Linnean Society, 172(3): 631-652
Revisa a fauna de anquilossaurídeos das formações Baruungoyot e Nemegt, na Mongólia, incluindo Tarchia, Saichania e o novo gênero Zaraapelta nomadis. Fornece o contexto asiático, grupo-irmão, crítico para o cenário biogeográfico proposto para Zuul, cuja linhagem norte-americana tem raízes em dispersões a partir da Ásia.
Redescription of Ankylosaurus magniventris Brown 1908 (Ankylosauridae) from the Upper Cretaceous of the Western Interior of North America
Carpenter, K. · Canadian Journal of Earth Sciences, 41(8): 961-986
Redescreve o anquilossaurídeo-tipo Ankylosaurus magniventris, das formações Hell Creek, Lance e Scollard (final do Cretáceo). Fornece a base anatômica de comparação usada em praticamente todas as descrições posteriores de anquilossaurídeos norte-americanos, inclusive Zuul, do qual é um parente filogenético no clado setentrional.
A new southern Laramidian ankylosaurid, Akainacephalus johnsoni gen. et sp. nov., from the upper Campanian Kaiparowits Formation of southern Utah, USA
Wiersma, J.P. e Irmis, R.B. · PeerJ, 6: e5016
Descreve Akainacephalus johnsoni (Utah), o anquilossaurídeo mais completo conhecido do sul da Laramídia, com crânio e clava caudal preservados. A análise filogenética aproxima Akainacephalus mais dos anquilossaurídeos mongóis do que dos táxons laramidianos do norte, como Zuul, implicando múltiplas dispersões independentes entre Ásia e América do Norte.
Nodocephalosaurus kirtlandensis, gen. et sp. nov., a new ankylosaurid dinosaur (Ornithischia: Ankylosauria) from the Upper Cretaceous Kirtland Formation (Upper Campanian), San Juan Basin, New Mexico
Sullivan, R.M. · Journal of Vertebrate Paleontology, 19(1): 126-139
Nomeia Nodocephalosaurus kirtlandensis, com base em um crânio parcial com osteodermos cranianos bulbosos, semelhantes aos dos anquilossaurídeos asiáticos Saichania e Tarchia. Táxon norte-americano cujas relações são diretamente relevantes para o contexto biogeográfico em que Zuul, da linhagem do norte, se insere.
Function and evolution of ankylosaur dermal armor
Hayashi, S., Carpenter, K., Scheyer, T.M., Watabe, M. e Suzuki, D. · Acta Palaeontologica Polonica, 55(2): 213-228
Estudo histológico dos osteodermos de anquilossauros (espinhos, placas, clavas). Identifica uma arquitetura interna particular, com osso compacto fino sobre osso esponjoso e fibras de colágeno abundantes, compatível com funções de defesa e de sinalização. Fornece o pano de fundo histológico para interpretar os osteodermos em vida de Zuul, preservados inclusive com suas bainhas queratinosas.
An exceptionally preserved three-dimensional armored dinosaur reveals insights into coloration and Cretaceous predator-prey dynamics
Brown, C.M., Henderson, D.M., Vinther, J., Fletcher, I., Sistiaga, A., Herrera, J. e Summons, R.E. · Current Biology, 27(16): 2514-2521.e3
Descrição do holótipo de Borealopelta markmitchelli, nodossaurídeo preservado em três dimensões com pele, armadura e tecido contendo melanossomos, fornecendo evidência direta de contra-sombreamento. Ao lado de Zuul, Borealopelta é o espécime de tecidos moles mais importante entre os anquilossauros e serve como principal referência comparativa para interpretar o tegumento preservado em Zuul.
Espécimes famosos em museus
ROM 75860 (holótipo)
Royal Ontario Museum (ROM), Toronto, Canadá
Holótipo descoberto em maio de 2014 na Formação Judith River (Coal Ridge Member), cerca de Havre, Montana, e adquirido pelo Royal Ontario Museum. Descrito em 2017 por Arbour e Evans em Royal Society Open Science. É o anquilossaurídeo mais completo conhecido na América do Norte e o primeiro com crânio completo e cauda com clava preservados no mesmo indivíduo. Exposto na mostra 'Zuul: Life of an Armoured Dinosaur' desde 2018. As coordenadas exatas da pedreira são mantidas confidenciais pelo ROM para proteger o sítio.
Classificação
Descoberta
Curiosidade
Zuul crurivastator foi batizado em homenagem a Zuul, a Guardiã de Gozer, o cão demoníaco do filme 'Caça-Fantasmas' (Ghostbusters, 1984), porque o focinho curto, arredondado e os chifres esquamosais projetados do holótipo lembraram imediatamente os pesquisadores do monstro do cinema. O epíteto específico crurivastator vem do latim e significa 'destruidor de canelas', referência direta à clava caudal maciça, pesada o bastante, em teoria, para quebrar as patas inferiores de grandes tiranossaurídeos atacantes. A combinação cultura pop + latim erudito transformou o anquilossauro em uma das descobertas paleontológicas mais comentadas de 2017 na imprensa mundial.