Galinha do inferno
Anzu wyliei
"Demônio alado de Wylie"
Sobre esta espécie
O Anzu wyliei é um grande oviraptorossauro caenagnatídeo do Cretáceo Superior, Maastrichtiano (cerca de 67,2 a 66,0 Ma), coletado na Formação Hell Creek em Dakota do Norte e Dakota do Sul, Estados Unidos. Com aproximadamente 3,5 a 3,75 metros de comprimento, cerca de 1,5 metro de altura na cintura pélvica e 200 a 300 kg de massa, o Anzu é um dos maiores caenagnatídeos conhecidos e um dos maiores oviraptorossauros norte-americanos, ficando atrás em porte apenas do gigantesco Gigantoraptor erlianensis, do Cretáceo chinês. O animal combina um conjunto de traços bastante peculiar: crânio alto e delicado, mandíbulas desdentadas cobertas por um bico córneo (rhamphotheca), crista sagital pronunciada no alto da cabeça, pescoço longo e flexível, braços alongados com mãos de três dedos garrados, pernas longas e esbeltas adaptadas a corrida e cauda proporcionalmente curta. Por inferência filogenética, era quase certamente coberto por penas tipo pluma e possuía asas remiges nos membros anteriores, seguindo o padrão documentado em parentes próximos como Caudipteryx, Avimimus e Gigantoraptor. Foi descoberto em 1998 por Fred Nuss e equipe, em terras privadas na Dakota do Sul, e descrito formalmente em 2014 por Matthew C. Lamanna, Hans-Dieter Sues, Emma R. Schachner e Tyler R. Lyson no periódico open access PLoS ONE. O material-tipo inclui três espécimes complementares (CM 78000, CM 78001 e MRF 319) que, somados, representam a mais completa documentação de um caenagnatídeo norte-americano até hoje, permitindo reconstruir pela primeira vez boa parte da anatomia do grupo. Graças ao apelido 'Chicken from Hell' ('Galinha do Inferno'), cunhado pelos próprios descobridores em referência ao cenário apocalíptico do fim do Cretáceo, o Anzu virou rapidamente uma das imagens mais populares da paleontologia recente norte-americana, coexistindo na Hell Creek com Tyrannosaurus rex, Triceratops, Edmontosaurus, Pachycephalosaurus e Dakotaraptor até a extinção em massa do limite K-Pg.
Formação geológica e ambiente
A Formação Hell Creek (Cretáceo Superior, Maastrichtiano, aproximadamente 67 a 66 Ma) aflora em Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Wyoming, Estados Unidos. Foi depositada por rios meandrantes e planícies de inundação que drenavam para leste, rumo ao Mar Interior do Oeste já em fase final de regressão. Seus arenitos, siltitos e argilitos, intercalados por leitos de carvão, preservam uma das faunas mais ricas do Cretáceo Superior mundial, incluindo Tyrannosaurus rex, Triceratops horridus, Edmontosaurus annectens, Pachycephalosaurus wyomingensis, Thescelosaurus, Ankylosaurus, Dakotaraptor steini, Acheroraptor temertyorum e Anzu wyliei. A fauna é coroada pelo limite K-Pg, marcado por uma camada de argila enriquecida em irídio que registra o impacto de Chicxulub e o colapso dos ecossistemas terrestres no fim do Cretáceo.
Galeria de imagens
Reconstituição em vida de Anzu wyliei por Fred Wierum, amplamente adotada como imagem-padrão do 'Chicken from Hell' após 2020.
Fred Wierum, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Ecologia e comportamento
Habitat
A Formação Hell Creek, aflorante em Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Wyoming, representa o último pulso de ambientes continentais norte-americanos antes da extinção K-Pg. Era uma planície costeira úmida, de baixa elevação, drenada por rios meandrantes que desaguavam no Mar Interior do Oeste ao leste. O clima era quente e sazonalmente chuvoso, com florestas dominadas por coníferas, cycadófitas, palmeiras (Sabalites), magnoliídeas e as primeiras angiospermas dossel-formadoras. Áreas pantanosas com samambaias, tartarugas e crocodilianos alternavam com florestas mais secas de planície fluvial. Essa é a mesma paisagem que abrigou Tyrannosaurus rex, Triceratops, Edmontosaurus, Pachycephalosaurus e Dakotaraptor, entre outros.
Alimentação
Dieta interpretada como onívora. O bico desdentado robusto, com dentários fundidos, era capaz de cortar vegetação rija, esmagar sementes, frutos e ovos, além de capturar pequenos vertebrados e invertebrados. A musculatura mandibular inferida e a forma do bico sugerem um animal generalista, semelhante em função aos modernos casuares e emas, capaz de explorar recursos variados ao longo do ano em um ambiente sazonal. Não há estômago fossilizado com conteúdo preservado.
Comportamento e sentidos
Por inferência a partir de parentes próximos como Citipati osmolskae e Conchoraptor, o Anzu wyliei provavelmente chocava ninhos circulares de ovos em posição de choco aviária, com membros anteriores dobrados sobre a postura. Possuía cérebro relativamente grande para um terópode não avímida, com expansão do telencéfalo, consistente com comportamento complexo e cuidado parental prolongado. As pernas longas sugerem locomoção cursorial rápida em curta distância, útil tanto para fuga de predadores como Tyrannosaurus rex quanto para perseguição de presas pequenas.
Fisiologia e crescimento
Endotermia provável, à semelhança de outros maniraptores. Cobertura de penas inferida com base em Caudipteryx, Avimimus e Gigantoraptor, incluindo remiges nos membros anteriores e leque caudal. Pneumaticidade óssea extensa (vértebras cervicais e dorsais com forames pneumáticos) indica sistema respiratório tipo-aviário. O crânio leve com crista alta sugere papel em exibição visual, possivelmente reforçado por cobertura córnea colorida.
Paleogeografia
Configuração continental
Ron Blakey · CC BY 3.0 · Cretáceo, ~90 Ma
Durante o Maastrichtiano (~67–66 Ma), Anzu wyliei habitava a Laramídia, a metade ocidental do que hoje é a América do Norte, separada pelo Mar Interior do Oeste (Western Interior Seaway), um mar raso que dividia o continente ao meio. Os continentes estavam em posições muito diferentes das atuais: a Índia viajava em direção à Ásia, a Antártida ainda estava conectada à Austrália, e a América do Sul era uma ilha separada.
Inventário de Ossos
A combinação dos três espécimes-tipo (CM 78000, CM 78001 e MRF 319) preserva cerca de 75% da anatomia do Anzu wyliei, tornando-o de longe o caenagnatídeo mais completo conhecido até hoje. O holótipo CM 78000 contribui com crânio parcial e elementos pós-cranianos diagnósticos; o paratípico CM 78001 adiciona cintura escapular, membros e vértebras; e o paratípico MRF 319 preserva membros posteriores articulados e partes da pelve. Antes de 2014, todos os demais caenagnatídeos norte-americanos (Chirostenotes, Caenagnathus, Leptorhynchos, Apatoraptor) eram conhecidos apenas por material fragmentário, de modo que o Anzu virou a referência anatômica do grupo em toda a América do Norte.
Estruturas encontradas
Estruturas inferidas
Literatura Científica
15 artigos em ordem cronológica — do artigo de descrição original até pesquisas recentes.
A new large-bodied oviraptorosaurian theropod dinosaur from the latest Cretaceous of western North America
Lamanna, M.C., Sues, H.-D., Schachner, E.R., Lyson, T.R. · PLoS ONE, 9(3): e92022
Descrição formal de Anzu wyliei com base em três espécimes (CM 78000 holótipo, CM 78001 e MRF 319 paratípicos) da Formação Hell Creek. Apresenta anatomia detalhada do crânio, mandíbula, vértebras, cintura pélvica, mão e pé, e posiciona o Anzu em Caenagnathidae, irmão do clado asiático liderado por Caenagnathasia. É o primeiro caenagnatídeo norte-americano conhecido por material relativamente completo e quase duplica o conhecimento anatômico do grupo.
A new two-fingered dinosaur sheds light on the radiation of Oviraptorosauria
Funston, G.F., Chinzorig, T., Tsogtbaatar, K., Kobayashi, Y., Sullivan, C., Currie, P.J. · Royal Society Open Science, 7(10): 201184
Descrição do oviraptorossauro mongol Oksoko avarsan e uma revisão filogenética ampla de Oviraptorosauria, que inclui Anzu wyliei como caenagnatídeo robusto da Hell Creek. Os autores reconstroem a história evolutiva do grupo, a redução progressiva dos dígitos III das mãos e a distribuição geográfica entre Ásia e América do Norte ao longo do Cretáceo Superior.
A new caenagnathid (Dinosauria: Oviraptorosauria) from the Horseshoe Canyon Formation of Alberta, Canada, and a reevaluation of the relationships of Caenagnathidae
Funston, G.F., Currie, P.J. · Journal of Vertebrate Paleontology, 36(4): e1160910
Artigo que erige o gênero Apatoraptor pennatus com base em esqueleto articulado da Formação Horseshoe Canyon (Alberta). Rediscute a filogenia de Caenagnathidae e posiciona o Anzu wyliei como um dos terminais mais robustos do grupo, irmão das formas asiáticas Caenagnathasia e Elmisaurus.
Birdlike growth and mixed-age flocks in avimimids (Theropoda, Oviraptorosauria)
Funston, G.F., Currie, P.J., Ryan, M.J., Dong, Z.-M. · Scientific Reports, 9: 18816
Estudo osteohistológico de Avimimus com base em fósseis mongóis, que documenta crescimento rápido tipo ave e possíveis bandos mistos de juvenis e adultos. A discussão se estende a caenagnatídeos, incluindo Anzu wyliei, reforçando a hipótese de que oviraptorossauros tinham estratégias de vida mais próximas das aves modernas do que de outros terópodes.
A new oviraptorosaur (Theropoda, Maniraptora) from the Late Cretaceous (Campanian) of Utah
Zanno, L.E., Sampson, S.D. · Journal of Vertebrate Paleontology, 25(4): 897 a 904
Descrição de Hagryphus giganteus, caenagnatídeo do Campaniano de Utah (Formação Kaiparowits), então o oviraptorossauro mais meridional da América do Norte. É um dos parentes continentais mais próximos de Anzu wyliei e ajuda a mapear a diversidade do grupo em Laramidia durante o Cretáceo Superior.
Osteology and relationships of Chirostenotes pergracilis (Saurischia, Theropoda) from the Judith River (Oldman) Formation of Alberta, Canada
Currie, P.J., Russell, D.A. · Canadian Journal of Earth Sciences, 25(7): 972 a 986
Redescrição osteológica de Chirostenotes pergracilis a partir de material da Formação Judith River (Oldman) de Alberta. Estabelece bases anatômicas para Caenagnathidae na América do Norte e serve de referência direta para a diagnose de Anzu wyliei 26 anos depois.
On Chirostenotes, a Late Cretaceous oviraptorosaur (Dinosauria: Theropoda) from western North America
Sues, H.-D. · Journal of Vertebrate Paleontology, 17(4): 698 a 716
Revisão taxonômica e anatômica de Chirostenotes pergracilis, consolidando sua atribuição a Oviraptorosauria e refinando a diagnose de Caenagnathidae. Junto com Currie e Russell (1988), é a principal referência histórica usada pela equipe de Lamanna em 2014 para comparar Anzu wyliei com os caenagnatídeos canadenses.
Caenagnathidae from the Upper Campanian Aguja Formation of West Texas, and a revision of the Caenagnathinae
Longrich, N.R., Barnes, K., Clark, S., Millar, L. · Bulletin of the Peabody Museum of Natural History, 54: 23 a 49
Descrição de material caenagnatídeo do Campaniano da Formação Aguja, no oeste do Texas, e revisão da subfamília Caenagnathinae. Introduz o gênero Leptorhynchos e estabelece diagnoses que seriam usadas um ano depois por Lamanna et al. (2014) para posicionar Anzu wyliei em Caenagnathinae.
Cranial anatomy of Citipati osmolskae (Theropoda, Oviraptorosauria), and a reinterpretation of the holotype of Oviraptor philoceratops
Clark, J.M., Norell, M.A., Rowe, T. · American Museum Novitates, 3364: 1 a 24
Descrição detalhada do crânio do holótipo IGM 100/978 de Citipati osmolskae, referência principal para comparação craniana com Anzu wyliei e demais oviraptorossauros. Usa tomografia computadorizada para reinterpretar o crânio do histórico Oviraptor philoceratops.
Two feathered dinosaurs from northeastern China
Ji, Q., Currie, P.J., Norell, M.A., Ji, S.-A. · Nature, 393: 753 a 761
Descrição dos oviraptorossauros emplumados Caudipteryx zoui e Protarchaeopteryx robusta, da Formação Yixian, no Liaoning (China). Documenta pela primeira vez penas pennáceas em oviraptorossauros basais e serve de base para inferir plumagem em caenagnatídeos como Anzu wyliei, que não preservam penas diretamente.
The endocranial cavity of oviraptorosaur theropods and the increasingly complex, deep history of the avian brain
Balanoff, A.M., Norell, M.A., Hogan, A.V.C., Bever, G.S. · Brain, Behavior and Evolution, 91(3): 125 a 135
Estudo das cavidades endocranianas de oviraptorossauros (incluindo caenagnatídeos) por tomografia computadorizada. Documenta expansão dos hemisférios cerebrais e complexidade do telencéfalo semelhante à das aves modernas, reforçando a hipótese de alto desempenho cognitivo em grupos como o que inclui Anzu wyliei.
Caenagnathids of the Dinosaur Park Formation (Campanian) of Alberta, Canada: anatomy, osteohistology, taxonomy, and evolution
Funston, G.F. · Vertebrate Anatomy Morphology Palaeontology, 8: 105 a 153
Monografia sobre os caenagnatídeos da Formação Dinosaur Park (Campaniano de Alberta), incluindo Chirostenotes, Caenagnathus e Epichirostenotes, com análise osteohistológica de crescimento. Discute a evolução de Caenagnathidae no Cretáceo Superior laramidiano e usa Anzu wyliei como terminal de referência para comparações anatômicas.
A gigantic bird-like dinosaur from the Late Cretaceous of China
Xu, X., Tan, Q., Wang, J., Zhao, X., Tan, L. · Nature, 447: 844 a 847
Descrição de Gigantoraptor erlianensis, oviraptorossauro de cerca de 8 metros de comprimento e 1,4 tonelada, encontrado na Formação Iren Dabasu (Mongólia Interior). Mostra que Caenagnathoidea podia atingir porte corporal muito maior do que Anzu wyliei, expandindo a faixa de tamanhos do clado.
A new oviraptorosaur (Dinosauria, Theropoda) from Mongolia: the first dinosaur with a pygostyle
Barsbold, R., Osmólska, H., Watabe, M., Currie, P.J., Tsogtbaatar, K. · Acta Palaeontologica Polonica, 45(2): 97 a 106
Descrição de Nomingia gobiensis, oviraptorossauro mongol que preserva pigóstilo na cauda, fusão vertebral análoga à das aves modernas. O achado corrobora a interpretação de Anzu wyliei como ave-terópode com cauda curta adaptada a suportar leques de penas.
New material of Caenagnathasia martinsoni (Dinosauria: Theropoda: Oviraptorosauria) from the Bissekty Formation (Late Cretaceous: Turonian) of Uzbekistan
Sues, H.-D., Averianov, A. · Cretaceous Research, 54: 50 a 59
Descrição de novo material de Caenagnathasia martinsoni do Turoniano da Formação Bissekty, Uzbequistão. Caenagnathasia é o caenagnatídeo mais primitivo conhecido e um dos principais pontos de comparação externa para diagnosticar Anzu wyliei dentro de Caenagnathinae.
Espécimes famosos em museus
CM 78000 (holótipo)
Carnegie Museum of Natural History, Pittsburgh, Pensilvânia, Estados Unidos
Holótipo formal de Anzu wyliei designado por Lamanna et al. (2014) e depositado no Carnegie Museum of Natural History. Combinado aos paratípicos CM 78001 e MRF 319, fornece a base anatômica da espécie.
CM 78001 (paratípico)
Carnegie Museum of Natural History, Pittsburgh, Pensilvânia, Estados Unidos
Segundo espécime-tipo descrito por Lamanna et al. (2014), complementa o holótipo CM 78000 com elementos anatômicos adicionais, especialmente da cintura escapular e do membro anterior.
MRF 319 (paratípico)
Marmarth Research Foundation, Marmarth, Dakota do Norte, Estados Unidos
Terceiro espécime-tipo de Anzu wyliei, depositado na Marmarth Research Foundation. Preserva membros posteriores articulados que foram fundamentais para reconstruir a locomoção cursorial do gênero.
Classificação
Descoberta
Curiosidade
Os próprios descobridores apelidaram o Anzu wyliei de 'Chicken from Hell' ('Galinha do Inferno') enquanto preparavam os fósseis, em referência ao fato de o animal viver no cenário apocalíptico do fim do Cretáceo, coexistindo com Tyrannosaurus rex, Triceratops e Dakotaraptor na véspera da extinção K-Pg. O nome científico reforça o trocadilho: Anzu é um demônio alado emplumado da mitologia mesopotâmica, considerado perfeito para um terópode de 3,5 metros, bicudo, crestado e provavelmente coberto de penas. Mesmo sem aparição confirmada em filmes ou documentários, o apelido fez com que o animal ganhasse manchetes mundiais no dia de sua descrição formal em 2014, virando uma das imagens mais compartilhadas da paleontologia recente.